ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL
 

Atualmente, a necessidade de se manter em cativeiro indivíduos das mais variadas espécies de animais é inegável e se justifica por inúmeros motivos, entre eles a pesquisa (com seus infinitos enfoques), a educação ambiental, os projetos de conservação e a criação de animais de produção e de companhia (pets). Porém, animais confinados em qualquer um destes tipos de cativeiro podem apresentar diversos problemas de origem fisiológica e psicológica, uma vez que seu ambiente é muito restrito e sem dinâmica, o que os impede de ter controle sobre suas próprias ações.

Mas, por que o cativeiro provoca este tipo de problema nos animais ?
Por que no cativeiro os animais estão sob determinados cuidados que são essenciais para seu manejo adequado, como por exemplo, alimentos balanceados fornecidos em quantidades e horários controlados ou contato com parceiros determinados pelos humanos. Porém, estes cuidados podem comprometer o bem-estar, uma vez que o ambiente se torna totalmente previsível: o animal aprende até a hora que a comida está chegando apenas por escutar o barulho da chave do tratador ou do carro que traz a comida todos os dias. Imaginem as diferenças que existem na natureza? Em seu ambiente natural, os animais precisam passar horas do seu dia procurando os seus alimentos e muitas vezes disputando com outros animais algum território ou algum parceiro para acasalar. A natureza é totalmente dinâmica, com um ambiente oposto ao encontrado na maioria dos cativeiros.

Por este motivo, é FUNDAMENTAL a inclusão de programas que preencham os requisitos básicos de bem-estar aos animais mantidos em cativeiro. Estes cuidados essenciais do manejo, devem ser associados a um ambiente que promova saúde física e que satisfaça as necessidades psicológicas em uma abordagem que forneça estímulos adequados para a espécie que abriga.

Neste contexto, o enriquecimento ambiental surge como um criativo princípio de manejo que busca melhorar a qualidade de vida dos animais cativos, através principalmente, da promoção dos estímulos ambientais necessários à manutenção do seu bem-estar físico e psicológico.

Na prática, o enriquecimento abrange uma infinidade de técnicas e mecanismos simples e inovadores que incrementam o ambiente dos animais, tornando-o mais complexo e dinâmico. É possível enriquecer o recinto de um animal alterando estruturas, alterando a maneira de apresentar o alimento, introduzindo novos estímulos como, novas plantas (sempre lembre-se de verificar a toxicidade das plantas antes de oferecê-las!), barreiras visuais, tocas, sons, entre outras infinidades de itens.

Existem várias maneiras de enriquecer um recinto, mas independentemente do tipo de enriquecimento que for escolhido, ele deve oferecer segurança para o animal e deve SEMPRE estar de acordo com os hábitos naturais da espécie. As diferentes maneiras de enriquecer um recinto são divididas em quatro grupos: estímulos físicos, sensoriais, cognitivos e sociais. Alguns pesquisadores utilizam ainda uma quinta divisão: o grupo dos enriquecimentos alimentares.

Além de trazer novidade e imprevisibilidade para a vida dos animais cativos, o enriquecimento fornece uma oportunidade de escolha, permitindo que eles controlem seu ambiente. Vale ressaltar aqui que esta oportunidade de escolha desobriga o animal de interagir imediatamente com o item de enriquecimento oferecido: a escolha é dele.

O principal motivo para utilização das técnicas de enriquecimento ambiental é melhorar o bem-estar físico e psicológico dos animais cativos, porém existem outros importantes benefícios:
melhora a diversidade de comportamentos, incentivando o animal a expressar comportamentos típicos da espécie, ou seja, comportamentos mais próximos aos expressados por animais de vida livre;
aumenta as habilidades cognitivas do animal;
reduz a frustração, já que o ambiente se torna muito mais interessante e o animal tem maior controle sobre suas ações e o ambiente em que vive;
reduz o estresse, evitando a expressão de comportamentos anormais ou diminuindo a incidência destes distúrbios;
melhora o sucesso reprodutivo, através da estabilização de grupos sociais (em animais com este tipo de hábito social);
reduz comportamentos agressivos e acrescenta comportamentos afiliativos e de brincadeira;
melhora o desempenho dos animais durante competições (cães e cavalos que participam de torneios, por exemplo) e outras atividades, uma vez que o estresse será reduzido;
aumenta os índices de produtividade;
diminui o fastio, permitindo que o animal passe maior tempo em atividade;
facilita programas de re-introdução de espécies ameaçadas;
colabora em programa de medicina veterinária preventiva;
ambientes enriquecidos são mais atrativos e educativos para os visitantes, proprietários e tratadores, auxiliando nos trabalhos de educação ambiental local.


Ambientes enriquecidos de maneira adequada só tendem a contribuir com o manejo de animais cativos, pois promovem uma oportunidade única que reproduz e salienta os aspectos mais importantes do ambiente natural dos animais tendo um efeito altamente positivo sobre o bem-estar.

Um “detalhe” impossível de não ser abordado e que é obrigatório em qualquer programa de enriquecimento é a segurança dos itens que serão oferecidos. É um “detalhe” importante, mas que fará toda a diferença transformando um programa de enriquecimento bem sucedido em um programa arriscado e mal sucedido.
Todos os estímulos criados devem estar de acordo com os hábitos da espécie (terrestre, arborícola, aquática, etc.) e com as características de cada indivíduo (idade, limitações físicas, etc.).
Os itens escolhidos não podem provocar nenhum tipo de ferimento no animal, não pode permitir que ele fuja do recinto e não pode permitir que ele utilize o item como “arma” contra os tratadores (e visitantes se for o caso) e nem contra outros animais.
Para evitar brigas e disputas entre os animais, caso eles sejam mantidos em um grupo, número de itens oferecidos deve ser igual ou maior ao número de animais. Nunca menor!
Se optar por utilizar materiais artificiais, utilize apenas os que forem atóxicos e sempre os desinfete entre uma utilização e outra. Caso prefira os materiais naturais, que não são fáceis ou possíveis de desinfetar, separe-os para cada animal ou recinto.